quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Linda"

- Meus amigos não dão muita bola pra mim...  – Disse um garoto que brincava de monstro, vestido de Krueger.

- Você mente. Mente agora. – Disse uma garota vestida de preto, apenas para contrastar com a pele branca.

- Todos sabem que falo algo diferente da Verdade o tempo inteiro, então não é mentira, é apenas como sou. Me aceitam assim, apenas não me têm como profeta, ou redator jornalístico.

- Devia parar com isso. Boa parte da humanidade espera apenas pela verdade. Se houvesse hoje um cataclisma, e saíssemos na nave que hoje chamamos de Praça Central, pode ser que não o aceitassem lá. Você bem sabe que depois que o dinheiro foi extinto, verdade substituiu moeda, e mentirosos são ladrões.

- Eu crio realidades alternativas. – Diz o garoto, cortando a garganta de uma garota com suas garras.

- Não, você mente. Essa garota não existe.

- E como sabe que era uma garota?

- Bom... Não sei dizer. A maneira como segurou-a pela cintura, a leveza dela desacordada em seus braços, e a maneira como seu braço contornava seu tronco, quando ela deu seu último suspiro... Só poderia ser uma garota.

- Ela tinha tranças, não tinha?

- Sim, como sabe?

- Acabei de matá-la; ela sempre brincava de pular elástico na rua debaixo da minha casa. Ela sempre usou tranças.

A garota de preto observa o pôr do Sol por dentre as árvores. O laranja do céu parece pintar seus dentes de ouro. Sorri para o céu, não para o garoto. Ela não entende, nunca entendeu o garoto, tenta por partes, sempre:

- E por que a matou?

- Precisei fazê-lo. Eu a amava, e não pude ser amigo dela, tentei, pensei que ela fosse minha amiga, mas não deu certo. Ela não tinha amigos, por isso a matei.

- Muitas pessoas são felizes solitárias, sabe disso.

- Mas, não ela. Pulava elástico ao prantos, sozinha, calada. Fazia greve de fome, e ninguém a notava, a não ser por mim.

- Ninguém pula elástico sozinho, é impossível.

- Sabe que é possível. Ela pulava.

- Sim, eu sei. Ela colocava as meias-finas nos pés de cadeiras com pés de metal e assentos de madeira falsa.

- E, como sabe disso?

- O que é impossível, é pular elástico entre amigas, e estar aos prantos.

- Vê? Tive de matá-la, foi melhor assim.

- Você só a matou por que ela não quis ser sua amiga.

- Na verdade não foi por isso, mas você acaba de entender o que lhe disse por primeiro: “Meus amigos não dão muita bola pra mim”.

- Tem um lindo pôr do sol à sua frente, e você aí, olhando pro cadáver de uma menina que mal havia começada a entender o mundo à sua volta... Comece a viver um pouco pra variar, não se arrependerá. Faça essa garota desaparecer, e vamos tomar nosso cappuccino ao ar livre sem que essa carnificina nos incomode.

- Você está pedindo para que eu crie uma realidade alternativa? Linda existe, e seu corpo está estirado no chão, seu sangue ainda quente está sendo absorvido pelo gramado. Um mundo sem linda, seria um mundo completamente diferente desse em que vivemos! Consegue ignora-la? Consegue agora ver o sol se pôr sem ver a pobre silhueta dessa garota aos seus pés? Seus olhos tristes e apagados, suas tranças embebidas de sangue?

- Não! Não tem como! É o pôr do Sol mais triste que já vi, graças à essa vida que você acabou de anular! Faça isso voltar a ser um piquenique, entes que a noite chegue!

- Está bem... A garota não está morta. É uma atriz que contratei para lhe provar que não minto... que crio realidades alternativas. Pode levantar-se, Linda. Está feito!

- Como isso é possível?! A vi morrer, vi sua jugular esguichando sangue, e - -

- A realidade alternativa é mais flexível do que essa aqui, do pôr do sol.

- Então faça-a sumir! Ela está me assustando com esse sorrisinho, toda coberta de sangue... O cheiro é de sangue de verdade.

- Não posso fazê-la sumir. Tudo no universo caminha para o caos... é impossível ‘desmexer’ leite com achocolatado... Entende o que digo?

- Acho que entendo. Pergunte se ela quer cappuccino... O vento está frio.

- Ela não bebe em serviço.

- Você é completamente louco... Espero que se houver um cataclisma, você consiga subir na nave... Mentindo assim, não dá.

- Eu não estou mentindo... Você está acariciando os cabelos de quem? Tem alguém com a cabeça no seu colo?

- É Linda, ela... – A garota de preto leva a mão à boca, assustada. Não havia notado o que fazia.
O garoto ri de maneira sombria... Com aquela pele toda queimada e dilacerada de Krueger:

- Precisarão de mim na nave, garota! Se aterrissarmos num planeta onde não há nada, apenas solo, precisarão de mim para criar todo o resto. Ficção é a verdadeira profecia da humanidade! É só olhar para todos aqueles doutores em mecânica quântica falando em teletransporte.

- Então admite que o que faz é ficção!

- ‘Ficção’ é o nome que todos os outros dão. É como chamar pedacinhos de pão e suco de uva de ‘Corpo de Cristo’.

- Só espero que não haja um cataclisma...

- Eu também. A Terra hoje é um bom lugar sem todo aquele dinheiro!

- Só lhe peço uma coisa... Tire essa fantasia de monstro, não é legal. Não quero ver mais sangue. Da maneira como me olha, parece que quer cortar a minha garganta!

- Não há como me transmutar agora... Sabe por que me visto assim? É porque isso tudo não passa de um sonho. Criei este sonho para você!

- Isso é mentira!

- Não, você sabe o que é isso...  O que são os sonhos, senão realidade alternativas?

- Aaaah!


A garota acorda, tem as tranças bagunçadas.  Olha pela janela, e não vê nada além de árvores, um pôr-do-sol daltônico, e duas cadeira justapostas, com meias-finas em volta.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Quero Acordar Morto


Quero adormecer profundamente, sonhar um tanto, e acordar morto; morto aqui, onde deitamos. Sem memória, sem compromisso, sem vestes.

Entrar no mar sem me importar com anzóis, sem olhar pros dois lados, sem me preocupar com cortantes ondas rasteiras.

Caminhar pelo mundo escuro, sem sons, sem muros ou meio-fio.
Quero ser apresentado à Graça despida de luz ou cobre ou verbo.
Quero conhecer animais maiores que eu, que não correm nem ninham, que rodopiam livres de espaço ou tempo, que não se importam com minha existência. São santos.

Andar no céu, sem ver cor, pigmento, textura, profundidade, infinitude.
Quero acordar morto, sem sensações, sem casa, sem fotografias ou cartas.
Não quero mais regar o que cativo, a não ser um recanto que me chama todas as noites quando durmo; sonho um tanto, e acordo morto.

Acordo, não penso que acordei. Caminho por barrancos, galerias.
Existe um horizonte, existe o breu.
Não há cavalos, não há joguetes, não há história, e o Sol e o Tempo amanheceram mortos.

domingo, 17 de março de 2013

"Please, teach me Hitch"


O que fascina na beleza dos perturbados é que ela é feita e vivida para eles mesmos; o fruto disso é o horror de estranhos, o que lhes agrada, são incompreendidos. Os que procurei entender nunca me encucaram, procurei entender porque me achava parecido; nunca pareci.

Hitchcock está certo sobre estradas quando se está sozinho; a amplitude do espaço ocupado por desconhecidos não é nada além de hostil, os faróis que iluminam meus olhos não se chamam luz, aquilo dói, e são os outros que me apontam estas adagas. Morar com a mãe depois de adulto também não é tão saudável quanto poderia parecer; ela não gostou nada do meu retrato de Bates cercado de aves taxidermadas segurando a mão de sua falecida mãe na cadeira de balanço... Mas que tolice, qualquer um sabe que ele não faria mal à uma mosca!

É importante ser gentil com desconhecidos, após olharmos em seus olhos temos um certo tipo de responsabilidade sobre eles; conhecerão nossas peculiaridades, e nossas mães. Ter um jardim é tão importante quanto ter um labirinto, e os dois têm a mesma função, trata-se do que é cultivado em segredo por trás dos arbustos, conheci garotas atrás de alguns... Já falei sobre isso algumas vezes, gosto de economizar esse tipo de coisa. Eram garotas bonitas, numa avenida estilo Broadway, só que tudo era espelhado reversamente, o fluxo contrário era luminoso, e a luz na verdade era plasma; isso até que tudo começou a se esvair, e outro dia vi o filme todo passando novamente diante dos olhos. Posso chamar flashbacks de filmes, certo? Prefiro a palavra déjà vu.

Ele estava certo sobre cutucar a ferida com o cano de uma Magnum, sempre tive problemas com insônia, e durmo como morto, todos os dias, à tarde. Pássaros são conspiratórios, assim como besouros, que se juntam aos montes nos bolos de receita de M. Crowley, feitos para olhos estranhos e cada vez mais sedentos que se lançam em minha direção, como faróis na estrada.

Desta vez não se trata de um sonho, realmente minha pele sentiu. Ao chegar na casa de um desconhecido (cheia de velhos amigos), fui cumprimentar um rapaz que conheço há anos, ele cozinhava frango, e servia-o com palitos de dentes aos convidados, ele desviou de certa forma o prato com aperitivos de minha mão. Estendi minha mão à ele, e ao aperta-la ele apertou-a firmemente; senti uma agulhada na aparte inferior, onde ele segurou com o indicador, dedo médio e anelar. Aquilo foi desagradável, e pareceu hostil, meu pescoço se arrepiou, e fiquei refletindo sobre o que poderia ter sido aquele aperto de mão doloroso. Momentos mais tarde eu tentava tirar da mão uma farpa, um espeto, algo que estava lá dentro; minha companhia ao meu lado me perguntou “Você passou glitter na mão?”, foi nessa hora que percebi que minha mão estava coberta por finíssimos e minúsculos caquinhos de vidro (perceber isso foi pior do que o aperto de mão em si).

Perceber hoje onde vivo é pior do que viver onde vivo; dar nomes aos lugares, às pessoas, separar situações devido a se passarem em diferentes ambientes, isso é pior do que estar imerso nisso tudo. Minha mente julga, nomeia, separa, e isso é desnecessário, não há foco; se eu pudesse assassinar minha mente, e continuar consciente, de coração pulsante, de aura expansiva, de respiração clara, de cabeça fresca... Eu não precisaria perceber coisa alguma, não há surpresas aos olhos do Desperto. A vida é clara nas entrelinhas, e nós... Acreditamos ter aprendido coisas demais vendo TV.

terça-feira, 12 de março de 2013

Seções Invisíveis


Há momentos em que sinto estranha ligação com a dinâmica de um mundo que acontece velado, [dentro de minha cabeça] (?) (é o que me dizem quando falo); outras opiniões minhas são interpretadas como paranoides, e paro de me importar com isso agora. O que acontece do lado de fora é bem diferente do que nos falam homens que têm certidões que indicam que sabem o que falam. Não deveria ouvir nenhum deles, homens de branco, homens que riem, homens que cantam; homens e mulheres bem resolvidos consigo mesmos, que fazem convites de maneira sempre incisiva, de olhar gentil.

O ímpeto de conhecer o fim é parecido com algo que conheci há algum tempo. “Hoje” é uma palavra forte, e deveria ser menos  usada, talvez de modo generalizado, como... “Hoje é vida, amanhã será morte”. Separar a vivência em seções é extremamente humano e doloroso; dividimos a vida antes de nossa existência aqui em eras, separadas por mortes, quedas, escassez. Normalmente não nos damos conta de que um dia nunca acaba, e que dormir ou morrer não separa as coisas de modo geral; observar tudo em primeira pessoa é manco, e é de bom grado extinguir tal panorama vez ou outra.

O vortex, assim como os padrões fractais, não tendem a inovarem-se no quesito roteiro, mas sim no quesito matéria, talvez isso tenha a ver com o Eterno Retorno; outro cara já pode ter escrito isso aqui com grãos de arroz, e hoje sou ele, com outro nome, outra pele, outra luz. A diferença talvez esteja nos códigos; a vida se repete em roteiros idênticos, mas o alfabeto é outro, a evolução da linguagem: Olhares -> mímica -> grunhidos - [cataclisma] -> hieróglifos -> escrita cuneiforme - [cataclisma] -> números de 1 à 10 -> algoritmo - [holocausto] -> código binário -> telepatia estimulada eletronicamente por nanomáquinas -> transposição da reprodução por vias convencionais -> criônica -> estagnação intelectual coletiva - [holocausto espacial] ... Dispersão -> fim do homem como animal social - [paz mundial] -> expansão coletiva da consciência -> olhares -> mímica -> grunhidos -> 0100011100011001 (...).

Esforçar-se para compreender o silêncio é procurar ser um ser mais abrangente, mais pacífico, emancipado das seções impostas pela humanidade; a seção tão banalmente traçada, que divide o silêncio de vozes da nova tendência de assuntos (da noite, da temporada, da era). Respeitar a vibração do universo sem insinuar que falta um toque de criador (homem) ali é mais importante do que a ânsia pelo utópico nirvana.

Por conveniência, num futuro próximo, não profiramos algo sobre silêncios constrangedores.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

"A Agenda de Série de Auto-retratos"


Seria de bom grado ser compreendido numa noite dessas, sem a sensação de que falei demais, sem a cobrança dos assuntos paralelos que chegam como bullying enviado por torpedo na sala de aula. É desagradável ter a consciência de que preciso explicar a piada, e de constatar que normalmente ela é sem graça. Não sei se o Coringa se diverte todas as noites. É muito fácil acreditar que o céu estrelado me fez pegar as letras, e coloca-las justapostas em direção ao chão... É daí que você me vê, de cima de um edifício (nenhuma alusão ao suicídio, fique tranquilo). Nenhuma alusão à vida que conheci, e nenhum tipo de parábola, nenhum mestre a ser seguido; alguns assuntos a serem pensados antes de pegar no sono. O sono, que vem em hora indiscreta, que me mantém imaturo em tardes de quarta-feira. É difícil chegar aqui, e a vista é como a de qualquer outro ao meu lado, vejo o palco mais ou menos... E novamente, não havia extintor de incêndios no local, meio que a banda não pôde tocar.

Quando me lembrei de como nosso amor era bonito, lembrei também daquela imagem do GG Allin sangrando com a tatuagem escrita “Life Sucks”; sem desmerecer nada, sem me sentir agressivo, é apenas uma lembrança, que se funde também com o sabor de café com leite, e uma tarde no sítio de um desconhecido. Nada pode ser isolado, nem a sensação de que tudo é perfeito; e tudo é perfeito, mesmo que eu me sinta desse jeito. Faz parte de quem eu sou, e o tempo nos foi gentil; gosto de saber que passado é imaculado, mesmo depois de conhecer seu bisavô, aquele que conheci roncando no quarto ao lado, e não era um sonho (Doença? Como preferir...), e ele não era simpático. Falo sobre um inferno iminente que evitei voltando a conversar com os outros. Soo como um mosaico de recortes de revista, como a carta de um maldito homem que não vê o sol há dias, e quer que alguém faça parte de um tipo de jogo dinâmico, onde você pode ganhar um prêmio que não pode ser mostrado à ninguém; eu sempre tentei ser carinhoso, mesmo com desconhecidos. Nenhum deles me tirou o chapéu... Na realidade, ninguém reconheceu o esforço, nenhum dos desconhecidos (você reconheceu um esforço distinto, meu esforço de levar em frente a personagem, usar a roupa certa na hora certa, e dar um toquinho com soquinho naquele amigo bêbado que eu tanto amava, e que não queria me deixar em paz).

Seria interessante que eu não precisasse dizer nada, e nem mesmo me justificar para o branco em minha mente; ele não questiona nada, mas faz uma falta algumas palavras boiando por lá! São estas palavras aqui, estacionadas em margem, sem pretensão alguma de chegarem à você. Não há convergência agora, apenas um grande espaço, um certo tipo de coerência que veio com os dias mais vividos. Vividos com um grande ser se manifestando através de mim, o monstro bonito que você vê na rua, que é mais do que eu poderia imaginar aos treze anos, e algo mais incompleto do que minha sensação de “expectativa de vida”, 72 anos? Acho que era algo parecido. Preciso parar de pensar no futuro.

Saber que estou em paz agora é mais perturbador que a paranoia que vivi nos ônibus de Curitiba à SP. E estou em paz, pronto pra conhecer vida nova, e pronto pra entender que a vida talvez seja imutável, ou que a palavra “chão” é uma figura de linguagem, assim como “Oi, tudo bem?”. Queria que esta paz transparecesse, e que esta cara que tenho desde quando comecei a ter espinhas não fosse meu cartão de visitas.

Sempre falo de minha vivência solo como um tipo de submundo; preciso de um novo vocabulário, e preciso parar de me preocupar com a dialética. Um novo horizonte se põe à minha frente, e não estou sendo irônico, falo sério na maior parte do dia; este dia longo, que torço para que nunca acabe. Não há preocupação, senão pelo plasma que está em minhas dobras, as emoções que tanto finjo que não afetam minha consciência; minha consciência de são, meu comportamento de rapaz com saúde. Só tenho em mente aquele horizonte, e não falo mais em roteiro, nem em versão minha no crepúsculo de minha mente, pedindo pra sair; tudo isso foi uma fase, assim como aquele tempo em que eu colocava alto CDs que meu amigo metaleiro me apresentava (na verdade aquilo não era metal). Tenho fama de falar ao vento, de não ter um foco pragmático em meus assuntos... E sabe, isso é apenas o vento falando, respondendo às minhas lamúrias. Sei muito bem do que se trata, e isso é mais importante do que um queixo caído em aprovação. Não sei por que dor no peito, mas existe, apesar do horizonte, que não é metáfora; tudo aquilo que relato, sempre vejo e sinto, antes que o código alfabético se coloque à minha frente como um solícito empregado de caminhão de mudanças. Queria mesmo ser compreendido, mesmo que por cima; aquele olhar de... “Entendo o que você quer dizer.,.. Figura de linguagem.”, é realmente algo que eu gostaria de transpor.

Quando pensei em pedir uma série de fotos minhas, estilo James Dean antes de bater as botas, eu deveria ter pensado melhor; uma série de auto-retratos seria mais veemente, mais que palavras e coisas que soam (odeio isso) como ilustrações figurativas para minha mente criativa (E novamente, sem conclusões precipitadas, ok? Falo apenas do dia de hoje). Já me sinto melhor, e o horizonte é de verdade, do céu que amanhece, e não daquele lugar que sempre soa como submundo.

O passado faz muito alarde, e sai pelos poros, mas sempre falo dele como boas novas; o possível, “Se nos livrarmos deste mundo deturpado que nos apresentaram ”. Novos mecanismos de cognição, um mundo sem nomes, a ausência do tempo, e tudo isto sou eu.  Hoje a espontaneidade é aceita, e não louvada. Deve ser por isso que alguns me consideram um “cara legal”.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


Crie uma Música pra mim que não tenha Rima

A gente precisa de um fogo externo
E tudo dentro da gente na verdade é um espelho

Sou desengonçado no escuro
Só ando na rua à noite
E quase ninguém me vê

Precisei de um novo amigo
Pra te enxergar de novo
Sonhando de vestido azul numa varanda beira-mato

Precisei andar de carro
Carregando minha palheta da sorte
Pra lembrar um sonho, uma textura, um rosto em específico

Precisei pesar mais
E perder todas as roupas... Bom, na verdade não precisei

Você ouve uma voz no escuro
Minhas pupilas dilatam com o toque de seu espectro

Poderia fazer mais sentido se você lesse o que digo
Poderíamos fazer sentido num dia desses
Posso inventar um prato novo, com carne vermelha, do jeito que você gosta

O lance é que estou fingindo. Não sou poeta, apenas gosto de saber que posso te ver de novo...
Sonhando de vestido azul numa varanda beira-mato.

domingo, 13 de janeiro de 2013

'Silly Thing'


Você não precisa pedir perdão pra Deus porque matou um amigo imaginário. Seus amigos entendem a situação melhor do que você... Sempre. Tudo o que acontece numa trilogia é entendido como uma afronta à coletividade comum. Uma trilogia lhe faz pensar no bater miocárdio, e lhe faz não pensar, sentir.

Não conheço caminho a seguir, e não conheço desvio, não conheço ponto de chegada, e desconheço churrascarias à beira da estrada. Tudo o que é feito em trilogia é respeitado por cada olho e cada dente...

Conheço algumas situações padrão, e conheço o interior. Conheço um cara corcunda que anda na rua com cigarros e prostitutas do terminal urbano. E conheço um garoto bom, um garoto que espera minha instrução e assiste quieto e tranquilo à todos meus trabalhos. Acredito que ele pense que uma hora dessas as coisas vão se estabilizar; ele é um sonhador, e respeito isso mais do que à mim mesmo. Respeito este garoto, porque é ele quem assumirá a firma.

Alguns amigos meus acham que estou me encontrando. Eu penso que não há algo para encontrar; tudo do que preciso está bem aqui. Fico em paz, à pesar dos vizinhos... Conheço um ou dois, e tudo o que acontece aqui dentro não se trata de festa, nem um pouco. Devo procurar o meio-termo? Devo viver para gastar a energia que me foi dada como embrião? Acho que preciso de uma namorada.

Acredito na paz como pré-requisito para a vivência em dois, ou em um. Roqueiros sabem disso, e acreditam na paz. Toda e qualquer destruição é de muros, e grades, e cercas; e eu sei, não posso generalizar. Falo de trilogia. Falo de música, falo de um tempo calmo. Não devia pensar nos vizinhos... Eles nunca pensaram em mim; acredito em amor recíproco.

Quando uma música toca aos meus ouvidos dizendo “It’s gonna be alright...”, eu procuro um certo conforto, e acho muito pouco, apenas penso “Tudo ficou bem até agora, não é não? Você voltou de todas as viagens...”. Como é que o Bukowsky escrevia sempre bêbado?

Quero respeitar o garoto bom, e quero respeitar a garota. Quero poder olhar o beija-flor, e não me sentir estranho demais para admirar algo tão sublime. Me estranham, e retribuo. Acredito na reciprocidade.

Você é alguém, mesmo que despido de ego, e lhe chamo, às 5:19 da madrugada de um sábado morno, de sangue imaginário. Eu devia escrever um livro, antes que uma faca me encontre, antes que eu crie mal-gosto, antes que minha música entre na moda, antes que a gente dê um corpo à tudo o que acontece em nossas cabeças, antes que... A gente perca a “mão”.

Reconheço meu riso no seu, e sei que sou lido por poucos; poucos leem minha face, minhas faces. Pois é, acredito em toda aquela reciprocidade, e acredito que algumas mãos deveriam emagrecer para caber em certas luvas. Por luvas, digo gente. Conheço pouca gente, e deveria ler mais, escrever mais, e perder a vergonha e o pecado cristão. Eu deveria viajar pra Europa, e conhecer uma garota sardenta, de vestido florido.

Garoto Bom, um dia desses você vai morrer, e vão dizer... “Oh, my... Oh my.”

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

"Sonhos de $ 2,50... Outros que não valem nada."


Cara, ser original estava nos planos, arquitetei bem as arestas, mas toda noite dou uma topada com o dedinho do pé nas quinas. Quero sim me expor, quero me calejar, quero aniquilar esse maldito ego de artista... Mas não quero ser comparado, nem proporcionalizado numa escala de cinza (“olha só, até que ele tá quase chegando no preto!”). Isso é péssimo, e já está me tirando forças. Sabe o pior de tudo isso? Sou o pior julgador que já conheci, e me julgo como se pisasse em merda.

As pessoas não são todas fadas e brilhantes estrelinhas que nos derramam seu pozinho para nos acalentarem em elogios... Isso também seria péssimo! Aniquilar esse maldito ego não devia estar nos planos; ele parece fazer parte do programa alienígena, e se alimenta com a energia que deveria zera-lo a nada. Esse alien foi implantado, e é um estranho para mim. Maldito e estranho. Julgador e broxante. Estou manco e meio cego; hoje está difícil de viver.

Está difícil produzir essa estranha arte, e está difícil de aceitar toda essa caçamba de defeitos nesse feto malformado. Ter um filho assim não é fácil para ninguém, mas sim, desejo isso a todos.

Os antigos não entendem meu estilo, mas alguns aceitam, sem questionar, com a sábia lucidez que emana do um sol oculto em cada olhar de mais de 70. Os outros me pedem pra colocar uma botina, e tocar sanfona. Muitos jovens apenas passam por cima “disso tudo”, pois posso ser um excelente amigo, apesar “disso tudo”. Outros querem me botar pra baixo, com suas bocas abertas de hienas e cabelos sebosos; eles realmente não conhecem o que se passa nos bastidores. Aquele terrível acidente que aconteceu com o ator principal, e o estranhíssimo substituto que mandar no lugar do pobre e roto molambo.

Na realidade, o desejo de ser compreendido deve ter estado sempre tocando num playback, mas minhas composições extravagantes sufocavam o pedido. Eu devia me isolar, viver o verdadeiro sonho, não este que comprei na banca do meu amigo argentino em 1999. Isso me choca também; é horrível ouvir atrocidades deste tipo vindas de um amigo tão chegado (eu). Mesmo que ele (eu) me julgue, e me pise, sei que é como um pai que ficou alcoólatra por causa do pai, pois seu avô espancava os filhos; na realidade ele tem boas intenções, e existe um amor que é de dificílimo esgotamento entre nós. Já vi esse amor quase se esvair algumas vezes, mas aí uma plantinha bem regada me agarrava da beira da altíssima janela, e me dizia “isso não pode!”. Pois é, a sabedoria vem de um lugar muito estranho; às vezes esse lugar usa óculos e é odiado por boa parte da família.

Esses dias conversei comigo mesmo, e me propus ser meu melhor amigo. Foi muito bom, mas existe algo de boicote na minha manga... Uma carta de tarô num jogo de pôquer; e é sempre a do enforcado (essa carta existe?). Talvez resolva adentrar essa carta, escalar a forca e roubar alguns dentes do dependurado; dizem que isso traz muita sorte e fortuna!

“Trabalhar com o lixo, com o intragável, com o que é por muitos repudiado ou inexistente”... Que missãozinha horrível! O aspecto mais bizarro disso é que é aí que reside meu deleite; nessa margem, nessa borda de catupiry falso... Nesse sonho americano comprado por $ 2,50 em 1999 na banca de meu amigo argentino.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O Acidente Criador


Criar não é um fenômeno natural, é um acidente, um escorregão, uma bala perdida. Coloco a alma a postos, e espero que o acidente seja regra, e que a segurança seja exceção. O artista pode ser comparado ao fotógrafo jornalístico: “Sem desastres não há produção”.

Meu desastre vem se estendendo, como dominós reagindo em cadeia, está no meu DNA, e mesmo aceitando a cura, o acidente faz parte de meu ser. O acidente, como é mostrado pelos fotógrafos jornalísticos, causa desconforto, pede espaço; ar e espaço (para se acomodar e caber na mente). A arte faz este papel, o de reorganizar e afastar as prateleiras, posicionar as caixas de som que quebram o silêncio-regra da biblioteca institucionalizada que é a mente de cada ser ocidental. Para quê tanta organização? Para que no meio da biblioteca se acendam fogueiras, e para que os meninos de uniforme que ali estudam em silêncio voltem a ser lobos.

Meu sonho nesta noite não é tão intangível assim, mas é de difícil acesso; neste caso, o ‘difícil’ significa que não eu, mas alguém mais virtuoso o alcançaria. Ter um coração assim tão antigo me faz coçar a cabeça, e pensar se tenho noção real do que faço aqui neste pedaço de terra.

A Verdade é escura, é para os cegos e surdos. A verdade é tato, e é também para os leprosos e aleijados. A verdade também bate nos rostos daqueles que gritam ‘Aleluia!’. Essa infiel amante nos dá as costas, pois a verdade também não tem cara, nem alma, nem nome.

A verdade é discutível, assim como a vida na Terra, e ela é multifacetada, trazendo aos nossos olhos a incerteza, a verdadeira incerteza de que ela pode até mesmo ser distante de nossa humana existência. Dou um passo à frente, e digo que a verdade deveria ser dita, mesmo que fosse dolorida, horrorosa... E é isso que digo: “deveria”, entre aspas mesmo. Nada que é real é escondido de ninguém que tenha as portas da alma e da percepção abertas; pois a verdade é a própria realidade que lhe atinge o rosto com violência e frieza  irrepreensíveis.

Não existe fuga da realidade; e isso é sabido quando se percebe que nada mais somos do que receptores, monitores com telas que são olhos, e sentidos que são antenas. Nem mesmo morte lhe tira dos braços da realidade; nada mais real do que a certeza da morte, não é? Acredito em outras dimensões, assim como acredito que a noite sempre vem, por mais que o dia demore a se despedir. Pois espero a noite; e se criar é acidente, espero ansiosamente por um atropelamento.



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Compreendido pra quê?


Conheço meu olhar, com vergonha de ser “muito compreendido”; falo através de um codificador, um filtro. Não falo em enigmas, apenas tenha a chave no bolso. Seja o homem com a chave.

Percebi que quando pessoas desconhecidas me olham, tenho uma tendência automática de forjar o rosto de uma pessoa que pode se tornar perigosa. Percebi isso ontem, e me assustei com isso; assim como índios se assustaram com tanta pompa e fedor dos colonizadores. Por que tal analogia? “Porra, índios, cara?”. Eu explico: Minha alma tem se purificado, e minha carne tem adoecido; os índios são a alma, e os colonizadores, a carne (estupradores malditos de crianças. Crianças puras, como minha alma tem se sentido). Não vejo problema em dar crédito a algo tão antigo; a alma humana é de fato a Pedra do Gênesis. Amo minha alma, e apenas suporto minha carne.

Hoje é o dia perfeito... Usei todos os medicamentos indicados, mas não minhas drogas favoritas (e nem isso estraga este dia). Eu sei exatamente o porquê: hoje é um dia frio.

Dias frios são a raiz de toda essa minha reservada personalidade, que prefere falar mais de perto com pessoas simétricas, e que deixa o paciente agonizante na mesa, como se não fosse médico (a isso chamam de procrastinar o trabalho vital). Hoje sei, sou xamã de minha vila, e gostaria muito de lhe apresenta-la, mas hoje não será possível; visitas de caridade não acontecem com muita frequência em dias frios. O odor enojoso do lixo sob o sol é a bússola dos caridosos.

Se amaldiçoo o calor? Não. Amaldiçoo o culto ao calor, a boca podre e aberta da preguiça, que se torna rainha calçando havaianas.

Se gosto de às vezes não ser compreendido? Sim. Como gosto! Isso me torna cada vez mais xamânico.

Personalidade é algo descartável, e quebra-cabeças também; a não ser que se emoldure tamanhas perdas de tempo. Tem muita gente que faz isso, e aparentemente perdem os portais que a vida atira em suas caras... “Não, não posso deixar esse maldito vício de linguagem vestido como alguém se vestia há 15 anos”.

Parei de me amaldiçoar, e perdoo todas (eu disse todas) as falhas de minha carne, pois um xamã de uma vila tão íntegra deve amar seu veículo. A alma é aquela highway; já a carne, um fusca quebrado, pronto a ser abandonado. Pegamos carona com os grandes trens, que se fundem aos trilhos. Filosofias de vida? Estilos de vida? Bom, acredito que estas sejam as rodas do fusca, que se furam, se decompõem tentando se fundir à highway. Nada disso é preciso, calculado, ou provado por teoremas, e é por isso que é tão válido falar sobre tais coisas.

O homem (eu?) tem muita necessidade de se expressar, e pouquíssima necessidade de ser compreendido. Quadros abstratos, curtas de festivais, revistas em quadrinhos contando histórias que beiram o transcendentalismo..? Bem, este sou eu. E cada vez mais Eu.

Não se preocupe, não vou me emoldurar... Para minha carne? Dispenso caixão.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Pânico - Feito para o Evento Guerra de Ilustrações, de Londrina


1 segundo e meio de sua atenção por favor...


- Coloque um peso de papel nessa pele estirada no chão; você não é mais análogo a essa carniça. O que realmente diz respeito à você é sua alma, e ela não levanta voo, está bem aqui, no eixo de sua esfera.

- Posso lhe fazer uma pergunta?

- Claro.! Sou apenas você na dimensão macro.

- Ok. Cancelo a pergunta. Era essa mesmo a questão.

- Compreendo.

- Posso vir sempre aqui?

- Você sempre esteve aqui.

É aqui que acaba a saga do Primata do Submundo (aqui houve o espectro da pergunta sobre ‘O sentido disso tudo’). E é aqui que começa a nossa saga!

Conheço você de relance. Você é sensível, não por ser frágil, mas por ter a pele toda esfolada, de tanto atravessar os galhos secos da superfície. Me reconheço em ti, mesmo quando nos vemos por um 1 segundo e meio, sob o Sol do centro da cidade. Me reconheço em ti, porque quando saímos do casulo ao chegar em casa, somos pequenas mariposas, que riem de ratos nojentos na tela da TV, e não nos deleitamos naquela desgraça. Colocar o rosto para fora é complicado para Adões e Evas do Submundo. Deveríamos alçar voo em pleno meio-dia, cruzando os semáforos vermelhos de todo e qualquer olhar de ratos da superfície.

Reconheço o teu sofrimento, e lhe digo que ele existe devido ao paradoxo maldito, que é o de ter de nos escondermos ao sair, e voarmos sob o teto do quarto. Sabe do que mais? Gosto de você, e de todos seus amigos imaginários; de todos seus sonhos não vividos, e de seu casulo improvisado.

Acreditar que somos fruto de uma grande linhagem, e que temos a herança da evolução é um erro épico, Eva! Todo abrir de olhos é um limpar de placenta, e todo piscar de olhos é a morte de toda nossa linhagem. Abro os olhos, e saio de casa; o mundo é estranho e fétido, até que nos vemos por 1 segundo e meio. Isso às vezes faz valer meu dia. O frescor da primavera alaranjada que eu tanto sonhei me manda um sorriso. 1 segundo é o bastante para espiar pelas brechas do casulo... O meio segundo adicional é por pura admiração.

Gostaria que um dia fizéssemos uma nuvem de insetos, um panapaná, se preferir. Iríamos ao centro da cidade sem casulos, e desligaríamos a central de semáforos! Todos os ratos cegos, e um céuzão azul para conhecer.

Sei também o que pode pensar de mim neste momento, e até disso gosto em você. Só não me confunda com a canção de Vera Lynn. Não falo sobre um dia ensolarado, e sim sobre uma revolução barulhenta. Um incessante e ensurdecedor farfalhar de asas. Os ratos morreriam loucos; cegos e loucos. O fim do paradoxo das mariposas.

Nossa saga começa aqui apenas por este ser outro abrir de olhos. Tem placenta em seu rosto. Deixe-me limpar... Pronto, melhorou.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Saudades da penumbra


Um estúpido e formal roadie tenta se conectar à realidade, e pra isso usa o monitor de som... É tudo muito patético, desnecessário, e também a banda sabe disso. Mas, bem... todos têm direito de se expressar vez ou outra. O que ele balbucia são apenas manifestações superficiais, de um vulcão que explode toda terça à noite, que é quando a banda toca. É um mundo estranho, e ele sabe disso. Mais estranho ainda tem se tornado ele mesmo, e talvez seja isso que o fez falar...

“Onde foi que parei? Ok, deixe-me lhe situar, enquanto afino essa maléfica guitarra. Parece que esse show nunca vai começar...

Meu grande personagem foi ofuscado pela busca desenfreada por um roteiro. Ele tinha asas, e é só disso que me lembro. O roteiro tem acontecido desde sempre, e fui cego hoje a noite, completamente fora de sintonia com o grande e alado presente que pousava em meus ombros. Ele era apenas um embrião, e eu o sufoquei. Poderia estar agora no camarim.

Agora, aquecido e acariciado é bem fácil cuspir na janela elétrica (esta mesmo, que você encara agora), e fingir que estou dando uma de marionete; mas nada disso é real. As pessoas jogam fora seus grandes presentes, e cospem até se secarem, esperando que alguém ache graça, e que batam devagarinho em suas cabeças, e digam “tadinho...”. Cuspo hoje, mas só cuspo letras, o líquido está todo aqui, e o poupo, para um dia de sol.

Tenho sido um grande esbanjador, e isso tenho aprendido a aceitar ao ver amigos que estão com a conta no vermelho (todos eles estão na banda). Tenho ainda um cachorro, e a penumbra de meu quarto para nela me deitar. Não tenho móveis, mas ainda tenho cortinas, e isso é bom, atiça a pira externa, e todos pensam que toco um negócio divertido, como uma creche de palhaços mirins, ou um ônibus azul, mais penumbrento que meu próprio quarto, onde semi-gênios compõem ao léu (só me toco de tudo isso quando estou em casa, e já faz um bom tempo que estou na estrada). Eu compreendo essa grande mentira, e sei que a realidade é bem mais dura e certeira, como um prego enferrujado no meio da testa.

Como é difícil me livrar do seio, do dedo, da coberta. Manias infantilóides fazem de mim esse ‘espetáculo’ (!), e sigo em frente, como se eu fosse algo que realmente pudesse circular por aí... Não tenho licença para dirigir meu aparelho motor, pois ele foi tomado à força. Não tenho orgulho disso, nem vergonha. Alguns mestres têm me dado dicas de como pilotar essa coisa, e isso basta.

Preciso apenas de um copo d’água, e isso também me basta.  Viver simples, e deixar viver. Entende a proposta? Trago isso guardado há um bom tempo, nisso deposito meu apreço, minha luta, e também todo esse fluido, me inunda por dentro, e me afoga toda terça-feira.

Toda terça-feira à noite sou engolido pela natureza, e isso é fato.

Parece que essa maléfica guitarra está afinada. Sei que pegou o bonde andando, mas eu precisava conversar; turnês são realmente algo non-sense. Podemos nos falar depois do show? Ok. Obrigado pela paciência.”

  

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Anedotas da Carcaça - Parte I


Não sei se já notou... Eu não sei para quem escrevo na maior parte das vezes. Geralmente isso não é uma carta, nem um diário. Só escrevo quando a necessidade berra. Hoje ela berrou, porque me vi puto; mas calma (!), esse não é o final da história... Depois me inspirei, e reaprendi a sorrir. É engraçado como coisas aparentemente ridículas levam à reflexões que mudam nossa perspectiva!

Hoje vi um casal bonito (pelo menos a garota era bonita) rindo de mim à distância, numa fila de cinema. Olhei pra eles com nada que se parecesse com um sorriso, o que fez com que a vergonha que eu senti fosse refletida... pelo menos 70% da vergonha. Sabe aquele truque que fazemos quando queremos falar pra alguém que tem uma “figuraça” por perto, e então dizemos “não olhe agora, mas...”; pois é, peguei-os bem nesse momento. Depois vieram as risadas. São adolescentes, não fariam diferente nem que quisessem. Minha namorada não estava comigo, o que me deixou com menos credibilidade (hahaha, eu sei); algo do tipo, figurão loser. “Gordo, com cara de porteiro (?)”. Não sei o que pensam de mim, e não me importo, contanto que não riam da minha cara.

Após andar em círculos perto da fila do cinema, impaciente, puto com as minhas últimas notas do boletim da faculdade, e com a convicção de que eu era uma piada naquele contexto maldito de shopping center, pensei:

“ – Que lugar de merda... Gostaria de poder fazer algo para mudar o jeito como temos de nos portar, e andar, e toda essa coisa horrorosa. Nada disso é espontâneo ou verdadeiro!”

Se pararmos para pensar que não nos relacionamos com 98,9% (quem sabe?) das pessoas que vemos em nossas jornadas diárias, não é de se espantar que estejamos tão empobrecidos, neste Ocidente maldito. “Imaginação é mais importante do que conhecimento”, cita Einstein, mas no nosso contexto, tudo o que foge da carne, e da pedra e do asfalto, é considerado fantasia, misticismo... “Não é nada que eu possa pegar, ou ouvir um homem de terno dizendo que é verdade! Então... Não, não é verdade”, diria um idiota.

Pois não tiro minha carranca, nem meu uniforme, nem mesmo minha musa sanguinária do pedestal, para criar um ambiente mais confortável para 98,9% da população que vejo nas ruas, para me fazer parecer mais um que tolera futebol, novela, e todo o resto, que são apenas o lodo que envolve a boca-de-lobo, que leva ao esgoto pútrido que é a consciência oficial, massificada, de nossa população ocidental.

 Por Ocidente, especifico a pequena porção de Terra que conheço. Não posso falar do Oriente; não o conheço, e por isso para mim, ele significa esperança de que um pouco de evolução real ainda esteja acontecendo na Terra.

Quanto à minha musa sanguinária, ela me aguarda, e choro por ela sempre que vejo aqueles monstros sugarem de sua vida. Tenho-a somente para mim, e descobri-a por meio de solidão, que é um trem só de ida; um trem , no qual só olho para seu interior de vez em quando. Ter a cabeça para fora da janela tem sido uma obrigação, uma terapia de choque, uma experiência desagradável em boa parte do tempo. Alguns acenam, alguns riem, e alguns não notam que estou ali deixando que minha musa seque, para o bem desse meu ilusório e maldito Ocidente.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Desentendimentos com um vizinho distante...


Na realidade, eterna como ela é, o senso de humor que o mundo tem exibe piadas tardias, que só deuses entenderiam. Nestas últimas pequenas eras, que nós, finitos, chamamos de noites, a lua tem tido um sorriso cada vez mais largo... Parece que alguém entendeu a piada! Noites são eras, pois existem seres que entendem menos ainda a piada; seres menores que nós, para os quais rimos, e assim como a Lua, debochamos e escarnecemos... Pobres garotos, pobres formigas, pobres diminutos deuses!

Não, eu não entendo a piada, e me ofendo com os dentes brancos, e com a beleza maléfica, que acima de todos nós pisca com infinitos olhos espaciais. O único tipo de piada que entendo é aquela que os cientistas aplicam... Nossa, aquelas piadas são demais! Utilizei de uma delas há pouco, se lembra? Falei algo sobre o Infinito. Isso sim é piada requintada! Me ensinaram-na antes de me ensinarem uma miserável anedota: o finito. Pois é... Eu não o conhecia, e um dia eu me deparei com ele, logo num cruzamento, depois do aceno de um desconhecido, quando meu pai se preparava para uma curva:

– Como ele morreu?! – Perguntei eu alarmado. Hoje não me lembro a quem me referia.

– Ele morreu de velho..! - Disse meu pai, naturalmente.

– Como assim? - Disse eu, que só tinha brinquedos e caretas em mente.

– Ah, todo mundo morre... Se não morre de doença, ou outra coisa, morre de velho!

Fiquei quieto, claro..! Sabe quando você diz algo como “Eu tenho 47 figurinhas!”, mas o outro simplesmente responde louca e estapafurdiamente “É? Pois eu tenho infinitas!”. Sim eu calo a boca em situações como esta, mas percebi que perante a respostas como “Ah, ele é finito, por isso morreu...”, confesso que algo dentro de mim se apaga, não se cala, simplesmente se apaga. Miserável anedota! Finito.

Tal anedota fere mais o homem sensato do que qualquer perfuração feita por tridente que o inferno poderia oferecer. O inferno vem depois. O finito é logo aqui.

Tentei fazer as pazes com aquele sorriso largo, mas me feri por tamanho deboche. Ao invés de retribuir com um sorriso torto, vim aqui falar das cáries daquele sorrisão. Sim, ele debocha, até mesmo quando elogiado. Elogiei-o, disse:

“– Tu te assemelhas a uma grande tigela, na qual deuses se alimentam de estrelas; de tão belo teu sorriso, colocaram-na no alto da estante, para que eu, assim como os pobres garotos, e pobres formigas, diminutos deuses, não pudéssemos maculá-la!”

Bem, foi mais ou menos assim... Eu esperava um beijo. Mesmo que esse beijo se resumisse no fim de minha pele; mas não, o sorriso largo e eterno me contou uma maldita anedota, pior do que a do finito:

“–Deixa, cara de ameixa! Já ouvi isso infinitas vezes, você é figurinha repetida!”

Sim, tenho inveja daquele sorriso. Não brinco mais com ele.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

"..."


Troque "solo" por "nada"
Troque "nada" por "..."
Talvez seja melhor trocar o "..." por um  "  ",
E agora estamos falando minha língua!

Nem a base e nem o solo
Nenhum deles constitui realidade
Te vejo perdido, desloca-se no "..."
Tu me olhas, e somos o nada

Ser tão sideral me trouxe um presente
Desembrulhei-o e joguei fora o papel
Não devia tê-lo jogado
Dentro dele nada havia além de "..."

A Terra circunda o Sol
E nós nos prendemos ao solo
Não estamos de carona com a Terra
Não voamos. Não vês que o solo tornou-se uma dimensão paralela?

Crime e pecado são os nomes das coisas
Malditos e torpes.
Teu nome te congela, te solidifica em carne.
Ao invés de nomes, melhor é um "  ".

quinta-feira, 7 de junho de 2012

"A estória do coveiro tolo e o fantasma que come lixo"


Existe um chamariz maior do que o engodo da morte plena? Pra mim, a morte é sempre morte. Mas, plena seria a morte-surpresa, aquela que não me deixaria deitado na cama tempo o bastante pra eu me arrepender de qualquer coisa que fiz, ou deixei de fazer. Esse é meu grande grilo: “Será que fiz, e faço mesmo o que eu nasci pra fazer?”.

O som distante que saía do rádio do carro hoje me dizia algo; distante, no sentido de ter sido emitido em vida há no mínimo 42 anos. Acredito que o som dizia algo sobre a constante busca que a morte realiza atrás dos ceifados em potencial. Encontrei no caminho alguém muito ávido em sua busca pela morte. Ele me pediu um real, e eu entreguei. Num assalto amistoso, eu acredito que tenha agido bem, até perguntei se o cara estava “na paz”... Como eu sempre faço inconscientemente. Ele não estava na paz, e aliás, me abordou dizendo “me salva”. Eu não o salvei, e não fui um herói. Não havia nada que eu realmente pudesse fazer. Meu foco era outro no momento; talvez ter menos contratempos possíveis no caminho para casa.

A alma moribunda me pediu que cobrisse seus pés em sua cova. Os pés eram aparentemente só o que faltava para ser enterrado; segundo dizem, o cara já é uma alma penada. Na realidade, no meio daquele maldito purgatório de almas, essa alma moribunda era o único que poderia me socorrer, caso, algum assombrado quisesse me enfiar um cutelo. Ele se fingiu de segurança, e eu me fingi de bobo.

Nunca fui um herói. Em minhas maiores aventuras, eu fui o executor, ou o aprendiz maligno. Posar de anti-herói, aqui, para quem quiser me ver, é mais do que uma satisfação.

Sim, já fui de encontro ao revés, por ter esquecido como era; me lembro agora que o revés tem rosto fantasmagórico, e gosta de brincar com suas crianças como se fossem ossos. Lá, fui agraciado, por não ser criança, e sim, um rapaz de chapéu esquisito se fingindo de bobo.

Eu sei, não devia ter respondido ao eco do bueiro, mas era uma voz tão distante... algo de 40 anos atrás, provavelmente , ou mais... Bem mais!

O fato pelo qual me sento aqui trêmulo, é o de que eu não sei se deixei o dedão daquele cara pra fora de sua cova. Eu poderia ter voltado, e checado, mas seria um contratempo. Cheguei em casa pontualmente, como planejado, à salvo o bastante para transformar em estória um acontecimento aparentemente medíocre, mas que me transformou. Em estórias como esta, sou apenas o coveiro, que para à beira da estrada para comprar charutos, antes de ir à luta, e não o cúmplice de assassinatos de auras. Acredito que seja por isso que vejo tanto prazer em escrever.

domingo, 3 de junho de 2012

À Srta. Miggns, minha sunny sister.


Srta. Miggns,
Quando você diz que sua mais singela carícia derramada entre teclas é pobre... Bem, eu fico desconcertado. Lembra aquele lance meu, de não saber mostrar emoções ao receber presentes? Isso aconteceu com essa carícia. Não sei se sei presentear também... tudo o que dou de presente, faço primeiro para mim; você sabe como é.

Pouca gente te conhece. Muita gente me diz: “Sua irmã é muito firmeza”. Mas será que eles conhecem a fundo seus talentos, e sua mente, que pensa com letras? Será que sabem algo sobre seu lado que se vê feliz da vida por ser filha de uma fã de circo de palhaços pobres? Não sei se eles sabem. Gostaria que soubessem! Acredito que minhas mãos sejam ásperas para alguns tipos de carícias... mas podem ser boas para desenhar cartoons desajeitados. Esse “desenho” aqui é pra você.

Acontece um negócio estranho nestes novos dias, de um mundo de ar viciado; aquele frescor do sopro das manhãs de dias de semana, nos quais nos levantávamos para ver desenhos, e gritar ‘bruxa’ ao invés de Xuxa, esse sopro parece escasso... Mas olhe só! Temos snorkels! Snorkels estes, que elevam nossos espíritos à superfície, e sentimos novamente o frescor, que não descartamos (como muitos outros parecem ter feito), por sabermos que ainda precisaríamos dele, pois ainda somos crianças. Damos inspiradas nesse novo ar que nos cerca, sempre que estamos de pijamas novamente, mesmo vinte anos depois! Você continua morando dentro de uma grande botina, com janelas que dão para um grande gramado, onde você põe suas tortas para esfriar, feliz por ser uma linda camundonga, dançando ao som de músicas em alta rotação (daqueles discos antigos do nosso tio); e eu ainda sei fazer as micagens da dança que batizei de “dança do Jimmi Hendrix”.

No início de nossa caminhada, você foi como uma grande árvore, na qual eu me recolhia sob a sombra, e era uma sombra agradável, nunca opressora, e nunca em hora de almoço ao meio-dia. Você nunca me diminuiu na frente de seus amigos, nem quando você era pré-adolescente, e isso era sempre um feito épico (!), mas pra você era natural. Você me ensinou respeito, postura, personalidade, e a importância da criatividade, e dos detalhes. Você me mostrou que Rock é uma coisa boa. Sempre me incentivou a compor, mesmo quando eu não sabia praticamente nada de guitarra, e você sabendo ler partituras há tanto tempo.

O tamanho do respeito que temos um pelo outro nos permite crescer, e nos permite ainda olharmos um para o outro como provavelmente gostaríamos de ser vistos. Você é a prova viva do que nossa mãe nos ensinou sobre família; você é o Porto Seguro.

Sei que você me entende, e fico mais do que feliz por isso. Sabe que sou um tanto abstrato, e até chato de vez em quando. Me deram um cérebro tão fragmentado e esquisito, mas me deram uma irmã para entendê-lo pra mim. Você me entende melhor do que eu, e entende minha piadas, e até minha indignação ao constatar que alguns batizam discos e quadros ‘seculares’ de “demônios domésticos” (Jeezus! Será que era isso mesmo?).

Te amo demais, ermã! O domingo ensolarado que tanto procuramos, ao meu ver está cada vez mais próximo.  

Você sabe que eu gostaria de me virar do avesso; essa é minha natureza, mas me sinto um robô aqui na frente dessa tela... Sou bem mais humano de pijamas.

 Sem você, eu não seria possível.
 Obrigado pelos seus feitos épicos diários.

  


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Não há problema. Nem em mim, nem em você.


Me perguntei há momentos atrás, se estaria pronto, caso quisessem me levar. Me levar para onde? Para longe da mediocridade. Acredito que eu não saiba o caminho... por isso teriam de me levar até lá. O mais interessante a respeito desta questão é que eu não sei quem seriam essas pessoas, ou esses seres, essa grande e luminosa consciência elevada. Tudo isso se trata de um grande mal-entendido, de um erro de tradução. Nada pode me arrancar do solo. Minhas raízes há muito se alimentam da mesma fonte, e provavelmente eu não conseguiria me alimentar de diferentes nutrientes, por mais ricos que fossem. Gostaria de acreditar no contrário, mas hoje, não acredito.

Fico em casa, me agasalho, e cuido das frieiras. Não me constranjo, por incrível que pareça, com estas afirmações tão cansadas, e também tolas. Este ser rabugento que gosta de relatar, nada mais é do que o cara que tantos vêem no dia à dia, mas têm medo de cumprimentar, porque essa rabugem parece contagiosa, e grudenta.

Encontro as respostas, e não fico feliz com elas, por isso lhe relato, e fantasio; finjo que nada do que é dito é real, e que faço agora uma pequena peça de arte. Hoje sei que isso é falso, e que a arte em si tem se afastado de mim, assim como a imaginação e outros monstros. Fico feliz por um momento, por poder xingar meus ídolos, que tanto escarram em minha cara. Me parece que todo esse catarro está tapando minha visão para os grandes e reais ícones de minha vida, de minha família, de meus caminhos.

Tenho apenas gratidão, por todos aqueles que se fizeram ouvidos, e que compartilharam comigo de algo mais poderoso do que um filme numa tarde mórbida, ou um sorriso amarelo. Lágrimas são tão poetizadas hoje em dia que fico enojado; algumas coisas são sagradas (!), e assim devem permanecer.

Pedir perdão está fora de moda, assim como fora de alcance, e também fico feliz por isso. Minha boca se mexe, e se faz soar, mas nada do que digo faz tanto sentido quanto o que digo apenas para eu mesmo, e relato aqui (por isso, talvez, estas coisas façam tão pouco sentido para você de vez em quando).

Ter a mente como geleia seria uma boa, nesta sexta tão rígida e seca. Sei que não é divertido passar por aqui, e se deixar levar por tão ríspidas constatações, deste velho ermitão preso no corpo de um moleque; por isso tento me fazer breve, e nunca ultrapasso as margens que nossa relação estabeleceu há tanto tempo.

Não acredito que haja nada de errado comigo, nem com você. Mas tenho tido uma vaga ideia (muito, muito vaga) do que pode estar acontecendo.

O que falei até agora é um tanto extenso para ser uma introdução ao que realmente interessa, mas é assim que é. Gostaria de lhe fazer um pedido, como amigo, de igual para igual, sem fingir ser artista:

“Num dia desses, numa noite como esta, de sexta, você poderia me dizer o que há de errado no ar que nos separa? Será que é falta de umidade? Pois ele não é mais o mesmo condutor de energia que era antes. Me diga, e serei mais grato ainda.”

Tenho sido intimista, e tenho perdido a vergonha na cara; mas não me interprete mal... Posso te ajudar a organizar sua saga; posso lhe mostrar onde é o começo, e onde é o meio (talvez o diga porque quero parecer útil, mas realmente acredito no que digo). Em relação aos fins, cada um tem o seu.

Ainda sinto doçura nos abraços, nas conversas, por mais breves que sejam. Só não quero que desista de mim, não antes de me dizer o que há de errado com o ar que nos separa.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Caleidoscopia


O Homem, sentado só, numa sala de espelhos, tempo o bastante para conhecer muita gente, declama um discurso, enquanto fala com seus superiores.

- Me perdoem, não tenho lhes tratado devidamente. Sempre que vocês vêm aqui eu lhes ofereço cigarros, e esquecemos a chaleira apitando, como se fôssemos surdos, ou tivéssemos transcendido a carne, e conversássemos como iluminados. Realmente, lhes puxo cadeiras, e conto-lhes uma história, sem nunca me preocupar em situar-lhes dignamente nesse mundo de que tanto falo. Pois deixem-me tentar...

O Homem apanha um papel no bolso, e respirando fundo, começa:

“Existe um ninho, depois da mente, depois da aura, um lugar físico, de Não-Imaginar, que me segura pelas mãos, e cura minhas feridas. Me agarro à senhorita de cabelos cavernosos, antes que ela se dissolva, e pare de me amamentar. Neste ninho, no topo de uma grande árvore, brigo por alimento; qualquer um sabe que não somos capazes de voar, não em um lugar tão sólido como este. Entendo bem sua postura: “Cabeça elevada, olhos ligeiramente desconfiados...”. E entendo porque. Acredito que seja porque tudo aquilo já existiu, e voltará a ser, de maneira totalmente inusitada, com um fresco soprar, de um deus que ainda não foi corrompido. Trazer aos olhos algo tão distante pode parecer perigo, para nós, que não temos tanta intimidade assim com os planos evolutivos, traçados tão extraordinariamente por ancestrais intergalácticos (...)”



O Homem, já sentindo-se nervoso com a situação, interrompe o discurso, e proclama sinceramente:

- Olha, não posso abrir mais a ferida, isso dói... Mas posso colocá-la contra o sol, e vemos o sangue coagulando através das chagas... transparentes chagas contra o sol. Já perceberam que nossa única vista para fora deste recinto é o teto solar? Tudo sob a luz é um tanto frágil, também porque a luz é um presente, um grande brinquedo, que atravessa a carne, que não necessita de olhos para existir. Gostaria de leva-los um dia à esse tal mundo, onde existem corais, e pessoas gigantescas. Já fui um gigante uma vez! Foi horrível, mal consegui me mexer. Descobri que nos foram dadas auras de acordo com nossos tamanhos; todas as auras têm a mesma magnitude, segundo o que me foi dito, mas são incompatíveis com corpos de outros tamanhos... Caso acabem dentro de um gigante, não tentem controla-lo, pode ser doloroso, mais do que estas feridas.

Todos se entreolham, querendo mais um pouco da mini-carnificina. O Homem, fingindo estar novamente disposto, sorri, e depois gargalha.

- Há hã há he há! Que tolo sou, não é mesmo? Já parou de jorrar sangue desta aqui...

Apontando para o rosto, onde ficava a mais horrível de todas suas chagas, ele começa novamente o discurso, destroçando todas aquelas ínfimas poças de sangue; sangue este que já estava em falta, ainda mais após ter perdido tantos amigos [para nós, espelhos, para ele, amigos]. Perder tanta gente em tão pouco tempo simplesmente fez com que ele abraçasse cada um deles quando partiam, e o que cada um desses amigos deixava para ele, eram mais e mais chagas... “Histórias para você contar quando deixar este mundo, para aquele, do Não-Imaginar..!”, diziam eles. O homem era um grande contador de histórias, e vivia por e para elas, mesmo que o teto solar estivesse escuro, e não visse nenhum daqueles que sempre estiveram alí, cada um em sua “divisória de vidro” [era assim que ele via os espelhos].

Ele continuou:

- O mundo do Não-Imaginar é bendito, até mesmo por aqueles que não o visitaram, pois lá tudo é de pronta existência, e não precisa ser rebuscado de maneira alguma, lá conversam através de luz. Venho de lá, assim como a semente de cada um de vocês... Pois vivem através de mim, e...

Ele se deu conta, estava errado, por todo aquele tempo. Nada teve fim, e os mundos que visitara apenas reverberavam, estando em cada um deles ao mesmo tempo. Não se tratava de amigos, ou criações, mas sim, de mundos [para nós, serão sempre espelhos].

- Não! Não pode ser real! – Disse O Homem.

- E o que é real? – Retrucou um dos espelhos, vestido de branco e azul claro. – Sente-se, pegue um cigarro; vou pôr a chaleira a apitar. Posso lhe contar uma história?

O Homem, agora, com olhos que só poderiam ser de uma criança, sentava-se olhando para aquele sisudo, porém, brilhante ser. E o espelho disse, olhando de soslaio para o garoto, que encontrava-se todo retalhado, no centro da sala de espelhos:

- Sei que quer voltar pra casa, mas antes temos de descarregar todo esse peso, um sobre o outro; um de cada vez. Assim, aprenderemos a amamentar, e ser amamentados, naquela grande árvore que nos espera.

A chaleira apitou, e ninguém pareceu ouvir.