domingo, 3 de junho de 2012
À Srta. Miggns, minha sunny sister.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Não há problema. Nem em mim, nem em você.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Caleidoscopia
O Homem, sentado só, numa sala de espelhos, tempo o bastante para conhecer muita gente, declama um discurso, enquanto fala com seus superiores.
- Me perdoem, não tenho lhes tratado devidamente. Sempre que vocês vêm aqui eu lhes ofereço cigarros, e esquecemos a chaleira apitando, como se fôssemos surdos, ou tivéssemos transcendido a carne, e conversássemos como iluminados. Realmente, lhes puxo cadeiras, e conto-lhes uma história, sem nunca me preocupar em situar-lhes dignamente nesse mundo de que tanto falo. Pois deixem-me tentar...
O Homem apanha um papel no bolso, e respirando fundo, começa:
“Existe um ninho, depois da mente, depois da aura, um lugar físico, de Não-Imaginar, que me segura pelas mãos, e cura minhas feridas. Me agarro à senhorita de cabelos cavernosos, antes que ela se dissolva, e pare de me amamentar. Neste ninho, no topo de uma grande árvore, brigo por alimento; qualquer um sabe que não somos capazes de voar, não em um lugar tão sólido como este. Entendo bem sua postura: “Cabeça elevada, olhos ligeiramente desconfiados...”. E entendo porque. Acredito que seja porque tudo aquilo já existiu, e voltará a ser, de maneira totalmente inusitada, com um fresco soprar, de um deus que ainda não foi corrompido. Trazer aos olhos algo tão distante pode parecer perigo, para nós, que não temos tanta intimidade assim com os planos evolutivos, traçados tão extraordinariamente por ancestrais intergalácticos (...)”
O Homem, já sentindo-se nervoso com a situação, interrompe o discurso, e proclama sinceramente:
- Olha, não posso abrir mais a ferida, isso dói... Mas posso colocá-la contra o sol, e vemos o sangue coagulando através das chagas... transparentes chagas contra o sol. Já perceberam que nossa única vista para fora deste recinto é o teto solar? Tudo sob a luz é um tanto frágil, também porque a luz é um presente, um grande brinquedo, que atravessa a carne, que não necessita de olhos para existir. Gostaria de leva-los um dia à esse tal mundo, onde existem corais, e pessoas gigantescas. Já fui um gigante uma vez! Foi horrível, mal consegui me mexer. Descobri que nos foram dadas auras de acordo com nossos tamanhos; todas as auras têm a mesma magnitude, segundo o que me foi dito, mas são incompatíveis com corpos de outros tamanhos... Caso acabem dentro de um gigante, não tentem controla-lo, pode ser doloroso, mais do que estas feridas.
Todos se entreolham, querendo mais um pouco da mini-carnificina. O Homem, fingindo estar novamente disposto, sorri, e depois gargalha.
- Há hã há he há! Que tolo sou, não é mesmo? Já parou de jorrar sangue desta aqui...
Apontando para o rosto, onde ficava a mais horrível de todas suas chagas, ele começa novamente o discurso, destroçando todas aquelas ínfimas poças de sangue; sangue este que já estava em falta, ainda mais após ter perdido tantos amigos [para nós, espelhos, para ele, amigos]. Perder tanta gente em tão pouco tempo simplesmente fez com que ele abraçasse cada um deles quando partiam, e o que cada um desses amigos deixava para ele, eram mais e mais chagas... “Histórias para você contar quando deixar este mundo, para aquele, do Não-Imaginar..!”, diziam eles. O homem era um grande contador de histórias, e vivia por e para elas, mesmo que o teto solar estivesse escuro, e não visse nenhum daqueles que sempre estiveram alí, cada um em sua “divisória de vidro” [era assim que ele via os espelhos].
Ele continuou:
- O mundo do Não-Imaginar é bendito, até mesmo por aqueles que não o visitaram, pois lá tudo é de pronta existência, e não precisa ser rebuscado de maneira alguma, lá conversam através de luz. Venho de lá, assim como a semente de cada um de vocês... Pois vivem através de mim, e...
Ele se deu conta, estava errado, por todo aquele tempo. Nada teve fim, e os mundos que visitara apenas reverberavam, estando em cada um deles ao mesmo tempo. Não se tratava de amigos, ou criações, mas sim, de mundos [para nós, serão sempre espelhos].
- Não! Não pode ser real! – Disse O Homem.
- E o que é real? – Retrucou um dos espelhos, vestido de branco e azul claro. – Sente-se, pegue um cigarro; vou pôr a chaleira a apitar. Posso lhe contar uma história?
O Homem, agora, com olhos que só poderiam ser de uma criança, sentava-se olhando para aquele sisudo, porém, brilhante ser. E o espelho disse, olhando de soslaio para o garoto, que encontrava-se todo retalhado, no centro da sala de espelhos:
- Sei que quer voltar pra casa, mas antes temos de descarregar todo esse peso, um sobre o outro; um de cada vez. Assim, aprenderemos a amamentar, e ser amamentados, naquela grande árvore que nos espera.
A chaleira apitou, e ninguém pareceu ouvir.
sábado, 12 de maio de 2012
Cultivo.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Crítica às mentes ímpares. / ou ( We're 2 of a kind)
Nem pra um amigo distante
Nem para amigo algum
E não é para ‘leitores’
Me chamaram por um tele-comunicador
Me amarraram à cama
Não me deixaram falar
Tudo bem, eu não queria falar
Tudo isso lhe trouxe aqui
Não finja que não ouve
Não finja que olha para um caso
Que o homem de brinquedo seja tão esquartejado quanto o totem, já que está próximo à ele, com seu nojento espanador.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O Moço, a didática, loções pós-barba, e desenhos perdidos.
- Quem é esse aqui? – Perguntou a terapeuta, louca para ser parte daquela estória.
- Não sei. Espero que não seja eu! – Respondeu o moço de gravata, que já não fazia muita questão de estar presente, pensando apenas em seus rastros, seus rabiscos, suas pegadas e digitais (era um exemplar paranoico!).
- Para quem você fez esse desenho? – Indagou novamente a terapeuta, com um jeito quase didático, e desconcertante.
- Para algum, para alguém, para um. Notando a demanda, sou louco de enviar, de construir, de crer que um par de antenas a mais na fileira de formigas irá causar um tipo de desalinho confortável. Será que procuro o conforto, ou algo parecido com o recostar do andarilho no barranco ao fim-do-mundo? Acho que no momento atual, nenhum dos dois viria em boa hora. O desconforto me traz questões muito mais importantes do que o deleite.
- E por que tanta cafeína? – Perguntou a moça de suéter zigue-zagueado, coçando o joelho, que estranhamente, não coçava nenhum pouco.
- Por que tantas perguntas? Não te disseram o que eu vim fazer aqui? – Perguntou o moço de gravata, ajeitando uma no bolso uma caneta detalhada em dourado. Ele deu outro gole no copo térmico, cheio de café fresco.
- Bom, sua mãe lhe trouxe aqui, não foi? – A terapeuta não conseguia achar um ponto para descansar os olhos.
- Não é bem isso.
- Ela me disse que você estava tão agitado nessa manhã..!
- Sim, eu estava, mas aposto que não foi ela quem lhe disse isso.
- A quem você se refere ao perguntar se não me disseram o que você veio fazer aqui? – Desta vez com o cenho franzido.
- Olha, estou cansado de fingir ser personagem, quero algo além disso. Não é algo tão distante assim! Não vejo graça nessa peça, nesse filme, nessa maldita história em quadrinhos... Somos tão artificiais quanto o Super-Homem.
- O da DC, ou o do Zaratustra?
- Foi uma pergunta retórica, né?
- Sim... Você leu a última edição americana do Super-Homem?
- Não. Esqueceu que eu estou quebrado? Não tenho nem lugar pra morar, porra!
- Mas e a casa da sua mãe? – Ela anotava com caneta esferográfica azul, sabendo que aquela cor era repudiada pelo moço, quando usada para construir letras.
- Cara, ela é uma figura simbólica! Vê a merda? Você está se atendo ao personagem novamente! Não te disseram mesmo o que eu vim fazer aqui?
- Quem disseram?
- O porteiro, ou a recepcionista, oras!
- Ah, eles? Entendi... Achei que você estava falando em forma de enigmas! Ha ha ha... – Arrumando a gola do suéter.
- Esse roteiro tá uma bosta!
- Você se refere ao clima? Acho que hoje vai ser o dia inteiro ensolarado, né?
- Estou falando da merda do... Esquece, vai! Vou embora.
O telefone toca. A terapeuta atende.
- Oi? Ah, tá certo... Obrigado, Marlene.
Desconcertada, a terapeuta desliga o telefone.
- Você veio pegar os pães de queijo, né? Deve estar com fome... Trouxe o desenho como moeda de troca, certo?
- Sim, eu te disse! Estou quebrado, não tenho onde morar!
- Mas e a casa da sua mãe?!
- Deixa quieto.
