sexta-feira, 23 de abril de 2010

"O Caracol Pagador de Promessas"

- E então, falou, com ela? – Perguntou Barbosa.
- Falei, cara... Ela disse que só estava sendo espontânea..! –Respondeu Acácia, cuspindo creme dental no ralo.
- Eu não acredito nisso piamente, não. Ela parecia uma atriz de teatro de rua, falava alto, e gritava a cada gol... Disse outro dia que não ligava para esportes, até por isso a gente deve ter se afeiçoado.
- E quem é que liga pra isso? Você liga? Acredito na força da natureza, cara..! Se ela fez mal a você, um dia ela terá o ‘backwash’. Caso você não se lembre, fui eu quem ligou para a Jacira no natal, desejando boas festas. Você estava apenas testando seu novo brinquedo. – Dizia Acácia ao entrar no banho.

- Quando é que você vai parar com isso?
- Isso o que? Te cobrar a atenção que você deveria dar à Jacira?
- Não. Quando é que você vai parar de cortar seu cabelo, e jogar os resíduos na patente... olha pra isso! Aposto que ta rolando uma biogênese na nossa fossa!
- Ela é sua filha, pô! Você não deveria ter começado a se afeiçoar a ela quando ela tinha 7 anos! Dez anos se passaram, e você continua nessa, de “eu deveria ter feito alguma coisa”. – Gritou Acácia debaixo do chuveiro, abrindo o box para pegar a tesoura novamente. Foi deixando seus cabelos cada vez mais curtos.
- Sei lá... nada disso é realmente complicado. Já viu que todo mundo que sai debaixo da ponte tem uma história pra contar? Não trazem nada com eles, entretanto... Mudança alguma, nenhum móvel de madeira falsa, nenhum disco. Olha o tanto de merda que a gente ta juntando em casa! Parece ser uma idéia idiota, essa de bater aqueles americanos que juntam tralhas dentro de casa, só pra entrar no livro dos Recordes. Quem é que quer entrar pro Guinness afinal!?
- Bem, eu quero... – Respondia Acácia, lavando sua cabeça agora quase careca.
- Nada disso faz sentido! Deixei de trabalhar no escritório pra juntar sucata da rua, carregando aquele humilhante carrinho na ciclovia, com dezenas de quilos de coisas que nunca vamos usar... Agora quem sustenta a casa é você, com aquele seu trabalho de motorista. Olhe para seus braços! Parecem mais os braços de um caminhoneiro, e só o esquerdo está bronzeado. Devo estar endoidando... doidinho, hã hã, loco, loco.!
- Doido nada; você, Barbosa, é o mais são de sua família! Qualquer um sabe disso. Quem te vê na rua catando carrinhos de brinquedo, fios de telefone, e armações de óculos, e tudo o que traz pra casa, com tanto carinho, sabe que não é louco. Sabem disso também quando te vêem no nosso caminhão, subindo na escada ejetável, para pegar aqueles tênis maravilhosos, que você acha pendurados nos fios elétricos pelos cardaços.
- Cadarços.! – Corrige Barbosa.
- Que?
- É ‘cadarços’ que se fala.
- Tá, mas cê já levou algum choque ao tentar pegar um que seja daqueles tênis maravilhosos?
- Não!
- Então!
- É... verdade.
- Então! Você não está atrasado, querido?
- É, devo estar... Mas, ó! Se vier o pessoal do alarme aqui em casa, diga que não tem ninguém nos roubando não; não quero ninguém nos enchendo o saco!
- Mas estão faltando coisas! Aquele quartinho lá no fundo tinha mais brinquedos antes.
- É nada! Vou trabalhar. Tchau, môr!

Acácia suspeitava que Barbosa estava dando uma de Robin Hood, mas mesmo assim ficou quieta.
- Ligue para a Jacira! – Disse ela.
- Tá bom, vou ligar..!
- Pegue alguma coisa bem bonita pra ela!
- Sim! O maior tesouro!



4 comentários:

  1. A loucura é tão relativa. É tão sã.
    Seus textos sempre me surpreendem, pelo conteúdo, pela densidade. Mas, sinceramente, esse me encantou mais. Me pareceu tão palpável, tão real.
    Me lembrou do documentário "Estamira".

    Adoro ler você.:)

    Grande beijo, Rafa.

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  2. Hey Rafael,

    Muito bom esse seu conto, real, versátil, sincero e louco!

    É um prazer ter ler. amigo!

    abraços

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  3. Incrível como a loucura se encontra nos detalhes mais sutis e comuns. Uma linha travessa essa, que nos separa da insanidade... me sinto sempre em corda-bamba!

    (ri muito da parte da atriz de teatro de rua... sabia que faço Teatro? ;P)


    Beijos, Rafa.
    Inté.. (bem amineirado)

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